Passeio de elefante | A verdade sobre o ritual phajaan

Passeio de elefante | A verdade sobre o ritual phajaan

Um passeio de elefante, um sonho para uns, uma actividade engraçada para outros e uma crueldade para eles. Será que sabe mesmo o que está por trás de toda esta indústria na Ásia?

O elefante é um animal selvagem. Um animal selvagem que percorre mais de 50km por dia no seu habitat natural. Um animal selvagem que vive em comunidade com uma hierarquia estabelecida e que cria fortes laços com a sua família. Um animal selvagem inteligente, um dos mais inteligentes do planeta.

Mas como é que um animal tão inteligente acaba por andar a passear turistas o dia todo? Se calhar pensam, como eu já pensei, que são treinados como treinamos um cão ou um cavalo. Infelizmente não. A realidade é bem diferente.

Esses elefantes, antes de serem “dóceis & educados”, têm de passar por um ritual chamado “phajaan. Ritual esse que consiste em quebrar o elefante, separá-lo da sua mente para deixar de ser um elefante, ou pelo menos deixar de pensar e agir como tal. Para ter mais eficácia, esse ritual deve ser feito o mais cedo possível como é óbvio. Portanto as crias são retiradas muito novas às mães e passam então por esse ritual.

Vamos ver um pequeno vídeo para perceber?

Mais difícil do que escrever este texto, foi ter de procurar e ver um vídeo para partilhar com vocês.

Para quem não conseguiu ver o vídeo: esse ritual consiste em torturar um bebé elefante, chegam a partir membros, sufocá-lo, espancá-lo… muitos nem chegam a sobreviver.

Inicialmente, os elefantes eram usados no transporte de madeira na Ásia (principalmente na Tailândia), mas a lei sobre a desflorestação, no fim dos anos 80, veio estragar os planos, deixando centenas de elefantes e os seus donos (mahout) desempregados. A isso juntou-se um turismo crescente e pessoas gananciosas que aproveitaram os elefantes já “educados” para criar os primeiros passeios de elefante. Hoje, a Tailândia possui perto de 2500 elefantes registados na área do turismo, 95% do valor total mundial.

Felizmente, a Lek veio mudar o rumo dessa triste história (pelo menos tenta), com a esperança que muitos outros sigam os passos dela para abolir de vez estes rituais. A Lek é uma tailandesa originária de Chiang Mai que percebeu, muito nova, que esse ritual era simplesmente cruel, absurdo e desnecessário. Abriu então o primeiro refúgio/santuário de elefantes da Tailândia e libertou vários elefantes que estavam a passar por esse ritual, arriscando a sua própria vida. 

Se quiserem ter uma experiência realmente única num local que protege verdadeiramente esses majestosos animais, podem visitar o Elephant  Nature Park em Chiang Mai, onde poderão conviver de perto com os elefantes e com a Lek. Poderão ver que ela tem realmente uma ligação especial com os elefantes, fruto de vários anos de treino e várias tentativas para se aproximar, curar e ganhar a confiança dos elefantes. O dinheiro é usado para preservar o espaço e para comprar alimentos e medicamentos para os elefantes (e para os cães, pois agora também recebe cães abandonados, doentes e deficientes). 

Outra boa opção é o Kanta Elephant Sanctuary, também em Chiang Mai. 

De certeza que existem outros sítios muito bons, e outros muitos maus que se fazem passar por bons. Por isso se conhecerem outro bom santuário ou se tiveram uma má experiência, partilhem connosco, a melhor opinião é sempre a de quem viveu a experiência.

 

~ Viaje de forma responsável ~

Filha e neta de imigrantes, as malas seguem-me desde a minha infância. O meu sonho, conhecer cada recanto do nosso maravilhoso mundo, faz com que esteja constantemente a pensar na próxima viagem. Natural de França, vivo actualmente no Porto, onde sou médica nas horas de trabalho e viajante nos meus tempos livres.

7 thoughts on “Passeio de elefante | A verdade sobre o ritual phajaan

  1. Marina obrigada pela partilha , não consegui ver o vídeo pois só me apetecia chorar … é muito cruel , das duas vezes que fui à Tailândia não andei de Elefante ! Já era contra os meus princípios ! Assim como não andei de burros em Santorini ! Tanto calor coitadinhos ! É com alegria que fico a saber que existem ainda pessoas com bom coração e sítios que salvam os animais ! Obrigada

    1. Luisa ainda bem que não participou em nenhuma atividade com elefantes. Infelizmente não posso dizer o mesmo, e esse foi o principal motivo pelo qual decidi escrever este artigo, para outros viajantes não cometerem o mesmo erro que eu. Hoje olho para esse dia com desprezo e vergonha, pois acabei por contribuir para este problema sem perceber na altura. Irei escrever outros artigos semelhantes, pois este problema não acontece só com os elefantes…

  2. Um excelente testemunho de algo que muitas vezes os turistas desconhecem. Tive a oportunidade de visitar um destes santuários e foi das experiências mais gratificantes até hoje. É bom sabermos que de alguma forma estamos a ajudar para o bem-estar destes seres maravilhosos.

    1. Olá André, infelizmente muitos santuários dizem “proteger” os elefantes mas depois deixam centenas de turistas aproximarem-se deles diariamente, o que provoca stress nos animais. Não é o habitat deles natural e acaba por haver acidentes o que obriga a manter os elefantes presos com correntes. Até podem não maltratar os animais directamente, mas acabam por prejudicá-los de outra forma. O santuário Elephant Nature Park em Kanchanaburi é um exemplo disto, inicialmente era um santuário para proteger os elefantes, mas a ganância do proprietário transformou o santuário num autêntico circo onde chegam diariamente vários autocarros repletos de turistas, os animais estão presos e o lucro é usado para criar um centro de spa e alojamentos de luxo dentro do próprio santuário… qual o sentido disto afinal? É preciso informar-se bem antes de escolher o santuário.

  3. Estivemos no Elephant Jungle Sanctuary, também em Chiang Mai, e recomendamos. É bonito de se ver a cumplicidade que os tratadores têm com os elefantes e vivemos momentos de interacção que nunca esqueceremos, sempre respeitando os limites de cada animal (os nossos e os deles).

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