Crónicas de viagem | México – Tulum

Crónicas de viagem | México – Tulum

No pasa… quase nada

          Nos dias em que a pele ruboriza e transpira o excesso de temperatura que tem de aturar, a vontade humana é inundada por uma inércia acompanhada de mar e refrescos. Tentem compreender essa vontade nos meus atos, tentem perceber o quanto a culpa não é minha. Nem cinco minutos passaram desde a saída do hotel até à “Taqueria La Eufemia”, mas cada minuto passado sem os pés mergulhados na areia, com o Sol a raiar e uma Margarita na mão, parecia um crime inenarrável. A pressa era muita, os lugares eram poucos, a paciência nenhuma. “Não vou estacionar num sítio qualquer Axel, ainda nos rebocam o carro.” “Marina, estás no México.”

          O carro ficou algures entre uma berma e os cinco centímetros laterais da estrada alcatroada, mesmo em frente de um outro seu semelhante. Parecia suficientemente bom para o espírito que tínhamos encontrado nestas paragens. Por aqui os semáforos são substituídos por lombas e mais semáforos, o que cria um novo tipo de caos lento, só aqui possível. Os carros ultrapassam em estradas com duas vias e dupla linha contínua e, se for preciso, quatro carros a passarem ao mesmo tempo também se arranja, mesmo que sejam camiões. Estas ultrapassagens tornam-se ainda mais terroríficas porque nunca sabemos se vão ser feitas pela direita ou pela esquerda.

          Neste país também não é essencial ter todas as luzes funcionais, ou sequer possuir o carro inteiro ou a carroceria íntegra para circular. A mim até me pareceu que nem sequer era preciso que o veículo fosse licenciado, à quantidade de veículos Frankeinstein que encontrámos. Verdade seja dita, até fomos parados uma vez pela polícia estatal por ter apenas uma das matrículas do carro, algo muito comum e para o qual ainda não tínhamos encontrado explicação, mas a mim parecia-me que o que ele queria era dinheiro.

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          Naquela praia os tacos temperados com efémeros pingos de chuva sabiam a ambrósia que acompanhámos com uma Margarita de Tamarindo. Ainda hoje suspiramos por estes sabores. O bar, ou restaurante, ou híbrido similar, tinha ambiente, nenhum em específico, mas sim bom ambiente, se essa expressão alguma vez fez sentido foi mesmo lá. Não era pelo lavatório feito de garrafas de vidro usadas, nem pelas cadeiras pintadas à mão, nem mesmo pelo sabor futuramente saudosístico dos tacos, era mesmo pela gente que ali domiciliava de quando em quando.

          Os meseros (ou serventes de mesa) eram simbiotas do mesmo ambiente, o que tornava o sítio em algo genuíno. Por isso se viam por lá locais, bem, por isso ou pelo preço dos tacos, que mesmo à beira-mar como naquele lugar se negociavam normalmente ao triplo ou quádruplo do montante. Os meseros por aquelas bandas trabalham por um salário irrisório, o que os torna dependentes de propinas mais ou menos generosas. A generosidade não é deixada ao acaso, não vá o transeunte estrangeiro habitual pensar que está a ser demasiado generoso com pouca coisa. As contas servidas na mesa vêm já com uma pequena tabela mencionando a quantia a que se refere cada percentagem de propina. Para um serviço excelente é recomendada quase sempre 20%, para um bom chegam 15%. Já para um mau 10% é o montante aconselhado. 10% por um serviço mau… A dar propinas, neste caso, só mesmo pela originalidade. Portanto, pelas regras do contrato social no México, mesmo supondo que o empregado é uma besta quadrada ou retangular ou até triangular, temos que gerar beneficência suficiente na nossa alma para premiar em 10% a má disposição e o fraco serviço. Deve ser gente que defende acerrimamente igualdade de direitos em relação aos funcionários públicos. Mesmo assim, por aqui, só por uma vez nos sentimos ludibriados e foi porque um mesero não identificado deixou uma garrafa de água natural à temperatura ambiente em cima da mesa sem nada dizer, algo que eu senti que seria grátis. O espanto do homem a quem reclamei pela conta parecia bem trabalhado, quase transparecendo o sentimento de solidariedade de antigos clientes.

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          O calor dos pobres já se tinha acabado, o calor agradável das férias impôs-se naquele agradável gastropub mexicano. A tarde levou-nos a banhos e outras atividades de lazer tão pouco dadas ao benefício da humanidade. Quando achámos que estava na hora de praticar o hedonismo noutras paragens dirigimo-nos para o carro. Agora já só transpirávamos amor e bondade e… “Axel, se aquilo for uma multa, eu vou-te matar.” Senti algum calor de pobre mas não desesperei, sabia que mesmo com vontade ela não tinha força suficiente para o fazer.

          De facto, o papel referia que cometemos uma ilegalidade qualquer. Qualquer porque, por burocratismo indefinido, a infração em questão estava codificada. A codificação, nas costas do documento, correspondia a uma frase apenas ligeiramente mais inteligível para um leigo em Boletins de Infracción de la Policía Federal. A Marina perguntou-me o porquê da multa, eu respondi que devia ser uma qualquer taxa especial para turistas que acham que sabem estacionar à mexicana. A frase, na verdade, dizia algo sobre ocupação da via pública, algo que com o rigor devido proibiria a maioria do estacionamento realizado no México. O que mais me preocupou é que a multa era paga em múltiplos do salário mínimo nacional no México, e esta correspondia a 10 vezes. A referência disso em voz alta não acalmou muito a fúria homicida da Marina.

          Ao regressar ao hotel, após uma pequena viagem sempre com o som constante de um rádio mas com ele desligado, a Marina correu em direção ao pequeno rapaz que se ocupava a estacionar os carros dos clientes. Ela queria saber, com alguma celeridade, de quanto era a multa. O rapaz respondeu-lhe perguntando se nos tinham tirado a matrícula. A resposta óbvia era que sim, estava escrita na multa e tudo. O rapaz ficou calado, mas começou a correr em direção ao carro. De facto tinham-nos tirado a matrícula e da maneira mais literal possível. Desaparafusaram-na e levaram-na com eles. Como já não tínhamos matrícula na dianteira desde que alugámos o carro, agora estávamos mesmo sem matrícula. Antes de sequer me preocupar com esse facto, o meu cérebro teve o seu momento de prazer ao perceber o porquê de metade dos carros no México não terem pelo menos uma das matrículas.

          O rapaz, que quase nos pedia desculpa pelo facto de termos sido idiotas a estacionar, explicou-nos que a multa deveria rondar os 200 pesos. Ao mesmo tempo que convertia o episódio em euros, o meu cérebro indignou-se com a circunstância de o salário mínimo nacional no México ser de 20 pesos, ao que de imediato contrapôs que isso seria missão impossível, pois ninguém ia trabalhar por tão baixa recompensa. O salário é que não deveria ter sido atualizado após tantos anos de inflação. A Marina, em apoteose de preocupação, disse que tínhamos de passar no posto da polícia. Respondi-lhe que sim, que podia ser, que até ficava a caminho do restaurante que havíamos escolhido para aquela noite e tudo. Ao que indignadamente inquiriu se era essa a minha preocupação. A minha resposta positiva apenas a frustrou mais um pouco. De qualquer maneira já tinha perdido a esperança de não ter de pagar aquilo.

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          Ao nos encaminharmos até à esquadra, num carro já laranja, apesar de vermelho, pelo pó que acumulava e sem matrícula ou identificação que fosse, o silêncio imperou. O silêncio, diz Lobo Antunes, é muito difícil. E se o dele é assim, o nosso era quase ternurento. Nunca deve ter tido direito a um rádio reclamador particular. Lá chegados, entrámos para a esquadra semivazia e sem grandes impedimentos. Avistámos por perto uma mulher polícia que mais parecia uma secretária da polícia, um polícia jovem que mais parecia um escravo da polícia e um polícia mais velho que mais parecia um capo da polícia. O polícia mais velho dirigiu-se a nós, perguntou-nos o que queríamos, deixando uma nota particular à sorte que tínhamos tido por a esquadra ainda não ter fechado. Era uma personagem de bigode em projeto (do tamanho apenas de barba de três dias), cabelo grisalho, baixo na perspetiva de um europeu e ligeiramente acima da média para um autóctone, abonado de boas carnes, muito versado no linguajar que, apesar de algum vernáculo, era hábil e algo esquivo. Disse-nos que a secretaria infelizmente já estava fechada e que, como tal, não poderíamos pagar a multa. Mas, felizmente, depois de uma pausa algo dramática para poder existir alguma desilusão na alma dos ricos estrangeiros, o homem encheu-se de coragem e disse que nos podia fazer um favor. Tirou uma enorme caixa debaixo de uma mesa, repleta de matrículas. De lá, milagrosamente, tirou a nossa. Valeu-nos a Virgem de Guadalupe. Verbalizou que eram apenas, e só, 238 pesos. Nós possuíamos 250, ao que ele respondeu que, como o secretariado já não estava presente, não nos podia dar o retorno devido. Pegou no dinheiro e guardou-o numa pequena caixa de metal onde me pareceu haver alguma possibilidade de retorno. De seguida meteu a chave no bolso. Ao levantar-se, pegou na multa, dobrou-a em leque com alguma mestria e pô-la no bolso da sua camisa. Esfregou as mãos e declarou, inclinando-se ligeiramente para a frente: “No pasa nada!”. Pedimos encarecidamente que nos voltasse a colocar a matrícula no carro, porque não tínhamos chave de fendas nem parafusos para o fazer. Disse que não podia, mas que metêssemos a matrícula rente ao para-brisas, pois a função era a mesma. Factualmente não seria bem a mesma coisa porque tornaria difícil tirarem-nos a matrícula outra vez. O polícia mais novo, com ar de empregado para todo o serviço e com pena da nossa figura, ofereceu-se para voltar a colocá-la. Depois da lição dada e compreendida, o aspirante a capo saiu connosco da esquadra, e, pedagogicamente, avisou-nos da vileza dos vendedores ambulantes e prestadores de serviços que tentam enganar turistas. Fê-lo com toda a sinceridade que, com certeza, lhe sobrava: “Hay que tener mucho cuidado, aquí hay muchos cabrones. Sólo piensan en el dinero.” Pausa nossa e cara de espanto. “Si, si, muchos cabrones…”

PS: No carro virei-me para a Marina e sentenciei: “Foda-se, aqui os polícias até sabem que são cabrões!”

Tulum

Transmontano de nascença, cidadão do mundo por definição, médico de profissão, viajante por missão. Há muitas coisas que gosto de fazer. Fotografar, escrever e viver, melhor ainda, escrever, fotografar e viver em viajem. Mas viajar, isso, só viajo com a Marina, deve haver poucas coisas melhores a fazer na vida.

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