Crónicas de viagem | México – Cenoté Nomozon

Crónicas de viagem | México – Cenoté Nomozon

A quase estrada

Muitos pedaços de caminho foram feitos no mundo, muitos foram acomodados para carros, este texto não trata de um deles. Em aproximação à pequena aldeia de Pixya, num pequeno chevrolet vermelho em slalon constante entre buracos grandes e pequenos, por vezes médios, muitas vezes difíceis de evitar, o ânimo ia alto. Mayapan tinha alimentado a vista, Variações em Estou Além ocupava-se dos ouvidos. Nós tentávamos parafrasear o António, mas a memória ainda tinha registado pouco mais que “só estou bem onde eu não estou”. Mas estávamos bem, sem dúvida. O GPS já se tinha enganado no caminho, a Marina já achava que eu que estava a enganar o GPS, porque este já se tinha enganado três vezes e duas delas no mesmo sítio. Chegámos de alguma maneira a Pixya, uma aldeia perdida no meio de tudo, representada no mapa com duas ruas. Tinha pelo menos três. Fomos recebidos com entusiasmo por uma comitiva especial de três rapazes e as suas bicicletas. Estavam claramente habituados a receber turistas e também a esperar por eles, exatamente neste sítio onde a aldeia começava. Já tinha debatido longamente com a minha companheira de percurso, dizendo que a estrada até ao Cenoté Nomozon aparecia no Google maps, mas mal eu dei conta os três rapazes já estavam no banco de trás do malfadado carro. Como eu adoro estas decisões unilaterais da minha mais que tudo. Os três falavam Maia, eu e a Marina em português, entre nós falávamos espanhol. Durante o percurso eu transmitia o meu entusiasmo à minha aventureira preferida, os miúdos divertiam-se a falar de algo enquanto indicavam o caminho. A sua capacidade bilingue era algo espantosa para rapazes tão novos, deviam estar entre os 8 e os 14 anos. O poblado de Pixya podia ter apenas três ruas, mas tinha um professor de espanhol e outro de maia, e umas quatro ou cinco lombas. Um deles tinha um piercing roxo no tragus da orelha, destoava um pouco da envolvência, mas, de qualquer maneira, um dia todos usaremos piercings roxos no tragus.

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Mas a aventura começou mais ou menos aqui, simulada nestas palavras, quando o nosso olhar reconheceu um caminho de terra, cascalho, pedras e pedregulhos. Eu fiquei um pouco receoso, mas também é para o que me dá a ansiedade. A Marina olha para mim, mete a primeira e diz-me: «Também são só 5 quilómetros». Como demoramos cerca de meia hora, suponho que tenhamos andado a uma média estonteante de 10 km/h, entre 20 km/h nos troços bons e 0 km/h quando verificávamos se o carro não se tinha desfeito no último buraco. Eu filmava com a nossa fiel GoPro com medo de que se não registasse o momento ninguém acreditaria no que aquilo era. Mas por muito vídeo que houvesse estaria sempre desenquadrado daquela realidade. A estrada era dividida por diversas cancelas, cada uma marcava o terreno de um ranchero diferente. Os miúdos revezavam-se para as abrir, saindo um à vez do carro. Por ali espalhadas havia duas ou três viaturas, mas todas elas com tração nas quatro rodas. Facto que me fez duvidar da capacidade do nosso pequeno e frágil Chevrolet Spark e das suas jantes do tamanho de um calendário maia de parede (as referências vêm sempre do objeto mais comum e próximo que encontramos na nossa mente). Ele tenteava a estrada, com uma Marina extremamente concentrada ao volante, tentando contornar todos os obstáculos, o que causava um constante slalom no movimento. As pedras batiam no fundo do carro, as rodas enfiavam-se em buracos, a carroceria balanceava constantemente, a temperatura aumentava e eu tentava perceber se seria possível o reboque chegar até onde o carro por fim desistisse.

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Chegados a uma cancela mais longínqua visualizamos uma pequena casa no cume de um pequeno monte, o que por estes lados significa pouco mais de 5 metros de altura. Por trás de uma árvore apareceu um ranchero abonado de carne anárquica (anárquica porque não obtinha forma por si só e todos os objetos que no universo não adquirem forma por si são redondos). Tinha uma grande enxada nas mãos, o que obviamente tornou a dúvida de parar e abrir a janela numa obrigação. Antes de dizer seja o que for conferenciou um pouco em maia com os três miúdos, cálculos existenciais certamente. Pediu 25 pesos a cada um dos turistas presentes no carro e mandou-nos pelo nosso caminho, esta simulação de estrada que avaliou em 50 pesos.

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Quase a chegar ao mais esteticamente desenvolvido buraco, interprete-se cenoté, na face do planeta Terra (peço desculpa desde já a todos os outros buracos na terra que ainda não vi) encontrámos a última subida, coisa de dois ou três metros mas bastante íngreme. Neste momento e apenas neste momento a Marina ficou um pouco receosa. De frente apareceu uma pick-up, o que obrigou o nosso carro a recuar uns metros em marcha atrás, coisa que foi feita com tal rapidez que uma das rodas dianteiras ficou suspensa com a carroceria montada em cima da raiz de uma árvore. A outra roda dianteira não estava muito melhor, enterrada na areia entre dois pedregulhos. Sendo rodas motrizes ficaram bem posicionadas para um resto de tarde ao Sol. A pick-up teve uma atitude um pouco hedonista e continuou a sua viagem em felicidade ignorando a desgraça alheia. Saímos todos menos a condutora do carro, eu dava a minha opinião de desentendido à Marina, tentando com as mesmas palavras transmitir a minha razão quanto à estupidez de trazer o carro até aqui. Ela disse que eu não tinha dito nada disso, ao que eu retorqui que estava escrito nos meus olhos, ela sabia-o. Os miúdos estavam a fazer um carreiro de pequenas pedras para a roda que ainda tocava no chão, algo útil portanto. Tentamos inutilmente fazer o carro avançar, ele apenas escavava um pouco mais. Com uma arrancada espontânea e inesperada, totalmente contrária a todos os meus conselhos inúteis, a minha heroína enervada tirou o carro do buraco, novamente em marcha atrás. Com a Marina os carros parece que têm sempre mais potência em marcha atrás… Com o motor a uma temperatura certamente mais alta que a desejável e a fazer um barulho digno de uma betoneira, estacionámos o carro debaixo de umas árvores, na esperança de que recuperasse um pouco.

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Chegámos ao deserto cenoté. Parte de um extenso sistema de rios e infiltrações de águas subterrâneas tão únicos a este país. Do cume vislumbrava-se uma pequena abertura, dela viajavam raios de luz. No estreito círculo que iluminavam via-se água cristalina e pequenas lianas que tentavam alcançá-la. Adivinhava-se por vezes o desenho de pequenos bagres negros. As andorinhas voavam em círculos entre a luz e a sombra. O ar espalhava o silêncio e a Marina sorriu.

Cenote Noh Mozón

Eu nadava e admirava o sossego, os miúdos saltavam para a água, a Marina sorria ainda mais e olhava. A experiência aqui muda os sentidos, as coisas não são bem iguais. Percebem? Aqui as andorinhas voam em círculos porque aqui o tempo é circular.   

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PS: O carro na volta não avariou, por opção própria, o nosso estado de espírito já não permitia tais preocupações. Este carro guerreiro ainda fez mais 2000 quilómetros nas mãos da Marina, é obra. Nesse dia prometemos-lhe que não faríamos mais destes caminhos, claro que dois dias depois estava a fazer a estrada mais esburacada de que há memória.

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Transmontano de nascença, cidadão do mundo por definição, médico de profissão, viajante por missão. Há muitas coisas que gosto de fazer. Fotografar, escrever e viver, melhor ainda, escrever, fotografar e viver em viajem. Mas viajar, isso, só viajo com a Marina, deve haver poucas coisas melhores a fazer na vida.

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